quarta-feira, 16 de outubro de 2013

POR QUE TANTA RESISTÊNCIA AO ENSINO TEOLÓGICO?

Por Gutierres Fernandes Siqueira
(Publicado com a devida autorização do autor)
 
 
O anti-intelectualismo ainda persiste no pentecostalismo brasileiro. Diminuiu bastante, mas a frente contra o estudo aprofundado é resistente. Vejamos alguns exemplos:

1. Ausência de obras acadêmicas escritas por pentecostais. Infelizmente, é possível contar nos dedos as obras de referência escritas por brasileiros carismáticos. Falta capacidade? Não, alguns pastores assembleianos são eruditos de primeira linha. Agora- não sei bem o porquê- muitos desses eruditos só escrevem obras de “vida cristã” ou alguns livros apostilados.  

Em 2008, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) publicou o livro Teologia Sistemática Pentecostal escrita por autores brasileiros, mas logo se percebe que a obra não tem uma unidade (em tamanho dos textos, no padrão das citações e nas notas bibliográficas etc.). É uma copilação de artigos. Não estou dizendo que a obra seja ruim (pelo contrário, eu recomendo), mas poderia ser bem melhor. Não entenda essa observação como uma crítica aos autores (alguns são meus colegas), mas essas falham mostram uma falta de tradição nessa área.

Exemplo de erudição pentecostal.
A CPAD tem ótimas obras acadêmicas, mas em sua maioria são traduções. Os pentecostais norte-americanos e canadenses não têm esse problema com obras de referência. Eu sempre dou como exemplo o livraço Comentário Bíblico Pentecostal (1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003) editado pelos teólogos French L. Arrington e Roger Stronstad. Outro exemplo interessante de erudição pentecostal é o livro Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento (1 ed. São Paulo: Loyola, 2008) escrita pelo doutor Wilf Hildebrandt. Stronstad ainda escreveu na década de 1980 aquela que continua a ser a obra de referência da hermenêutica lucana para uma leitura pentecostal. É o livro Charismatic Theology of St. Luke, The: Trajectories from the Old Testament to Luke-Acts [1]. Essa obra foi amplamente debatida no contexto hermenêutico anglo-saxão, especialmente em debates com Gordon D. Fee, erudito em Novo Testamento e pastor das Assembleias de Deus [2].

2. O serviço intelectual é desprezado. Em uma igreja pentecostal você só trabalha para o Reino de Deus se for um missionário transcultural ou um evangelista de praças. O serviço do ensino é simplesmente desprezado. Você pode se esforçar ao máximo, mas a igreja- no geral- não levará isso em conta. Ora, como é possível ignorar que a Grande Comissão envolve a missão evangelizadora, mas também (e igualmente) o discipulado? Outro detalhe importante: os pentecostais esquecem que o ensino bíblico é um dom “espiritual”. “Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine”, diz Paulo em Romanos 12.6-7. Veja que o dom de ensinar é colocado ao lado do dom de profetizar. 

3. Intelectual como sinônimo de soberbo. Hoje eu falava na igreja sobre a vaidade e dei como exemplo aqueles crentes que se exaltam na ignorância, ou seja, aqueles que se acham “mais espirituais” porque não estudaram. Falei até em tom de brincadeira, pois toda vez que vejo a ilustração de um sermão sobre a figura do soberbo, o pregador costuma usar o exemplo do “intelectual vaidoso”. Ou seja, sempre quem é dedicado ao estudo é estereotipado como orgulhoso. Ora, a vaidade é parte da natureza humana. Há quem se orgulhe do seu conhecimento? Sim, há. Mas há também que se orgulhe de sua “humildade”! Vide o ex-presidente Lula que sempre exaltava a si mesmo e a sua falta de estudo. Ao mesmo tempo ele falava sobre sua suposta competência. Era a vaidade da ignorância. 

Portanto, é necessária trabalhar contra essa mentalidade anti-intelectual que permeia a igreja evangélica (e pentecostal, especialmente), assim como a cultura brasileira. Cultura essa que nunca deu muito valor para a educação. 

Nota:

[1] É uma pena que uma obra tão importante para o pentecostalismo não tenha tradução em português. 

[2] Ainda que Fee esteja distante da pneumatologia pentecostal, especialmente na relação do Batismo no (ou com) o Espírito Santo como uma segunda experiência para o serviço.
 
 
Gutierres Fernandes Siqueira, 24 anos, é professor de Escola Bíblica Dominical na Assembleia de Deus do Jardim das Pedras (São Paulo, SP). Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e pós-graduando em Mercado Financeiro e de Capitais pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
 
 
 
 
cristão.

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