segunda-feira, 13 de março de 2017

DESMISTIFICANDO A PALAVRA "RHEMA".

 Orlando Martins

Com o advento dos dons espirituais aflorando no meio eclesiástico, os pulpitos evangélicos  passaram a respirar carisma e tudo basicamente que nasce nessas tribunas tem ou acaba tendo um fundo carismático e isso é muito importante, porque a obra de Deus deve ser realizada no poder do Espírito. Desta feita vão surgindo experiências entre o povo de Deus, algumas espirituais, já outras emocionais, sendo que as emocionais acabam ganhando mais força e notoriedade, por meio dos pregadores que ministram de modo emocional e que gostam de frases de efeito, chavões evangélicos, tipologias e figuras de linguagem, sendo que,  para legitimar suas prédicas, costumam afirmar que possuem uma "revelação", baseados na palavra Rhema.
Infelizmente esta é uma realidade que acontece principalmente nas igrejas neopentecostais e ultrapentecostais, sendo que, infelizmente, muitos pregadores não buscam compreender o estudo do texto de modo profundo, mas, para legitimar suas falas, botam na conta de Deus, afinal, quem irá ter a coragem de questionar estes pregadores profundos e espirituais que afirmam que possuem uma compreensão espiritual de um texto bíblico que ninguém alcançou, nem mesmo os maiores especialistas em exegese bíblica. Baseados no achismo e na eisegese[1], os pregadores da confissão positiva procuram criar uma diferença entre os termos gregos "logos" e "rhema", pois alegam que “logos” é a palavra escrita de Deus (como a temos na Bíblia), ao passo que, “rhema” é a palavra revelada de Deus para cada indivíduo através do Espirito Santo para uma situação específica, portanto, “Rhema” é a “palavra” que eles usam para “decretar” com o objetivo de trazer a prosperidade ou cura, e legitimar qualquer “revelação” de um ponto de vista pessoal sobre uma passagem bíblica. Portanto, em nome da Rhema, muitas heresias já foram legitimadas e interpretações absurdas foram sendo absorvidas pela igreja,  afinal,  quem irá questionar um ministro da palavra que afirma ter tido uma Rhema de Deus. 
Entretanto, diametralmente oposto aos ensinos da confissão positiva, as palavras gregas “rhema” e “logos”, são usadas alternadamente no texto da septuaginta[2], que traduz tanto “logos” como “rhema” a partir da palavra hebraica “dabar”, que significa “palavra falada ou escrita; discurso, o assunto do discurso, uma unidade mínima do discurso”, sendo que basicamente a única diferença existente entre “logos” e “rhema” é apenas de estilo literário e não de significado.  Sendo assim, basta um estudo mais profundo de ambos os termos, para concluirmos que não existe nenhuma diferença entre estes dois vocábulos no grego original, onde, muitas vezes, eles são usados como sinônimos. Portanto, o termo “rhema” significa “palavra, qualquer coisa falada, assunto do discurso”, enquanto “logos” apresenta uma extensa variedade de significados como: “palavra, discurso, pregação, relato, etc.”. Mas ambos os termos são concordantes.
Baseado na exegese[3] o Dr. Russel Shedd de saudosa memória, afirmou que Pedro não fez distinção sobre estes termos em sua primeira carta, capítulo 1.23-25: "Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra (logos) de Deus, viva que permanece para sempre. Porque toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; mas a palavra (rhema) do Senhor permanece para sempre; e esta é a palavra (rhema) que entre vós foi evangelizada".[4] Deste modo, como podemos observar, na mente do apóstolo não havia distinção entre estas palavras. Sendo assim, fica desfeita a pretensão dos proponentes da Confissão Positiva que querem forçar uma interpretação exagerada destes termos.
Portanto, analisando o quadro atual do movimento evangélico, observamos que a falta de ensino teológico de qualidade, acaba criando campo para os exageros como o triunfalismo e a confissão positiva que são muito comuns nas chamadas igrejas neopentecostais.  Como crentes e conhecedores da Teologia Bíblica, devemos cuidar com aqueles que procuram legitimar sua fala por meio de uma rhema “revelação” única e inquestionável sobre uma passagem bíblica. Entretanto, o estudante da Bíblia, pode claramente observar que esta diferenciação entre "logos" e "rhema" não tem base bíblica e representa o momento típico dos dias em que vivemos em se falando de teologia, onde o triunfalismo, a confissão positiva, o reteté e o ultrapentecostalismo ganham força, pois, muitos não querem ler, e muito menos analisar com cuidado e  amor a palavra de Deus.






[1] Eisegese: interpretação de acordo com os pressupostos pessoais e emocionais.
[2] Septuaginta: tradução dos setenta, quando o texto foi traduzido do hebraico, para o grego.
[3] Exegese: interpretação de dentro do texto para fora.
[4] ROMEIRO, Paulo. Super crentes. São Paulo: Mundo Cristão, 1993, p. 26.

Um comentário:

  1. Excelente reflexão amigo! É preciso maior profundidade teológica por parte dos nossos obreiros para não haver essas confusões nas nossas igrejas.

    Abraço!

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